Quando o comportamento do cliente revela excesso no modelo
Ao assumir a presidência da Cinnabon em meio a três anos consecutivos de queda de vendas, Kat fez algo pouco comum em redes sob pressão: foi para as lojas ouvir.A pergunta era simples: o que vocês veem os clientes jogarem fora?A resposta começou a se repetir. Parte do tradicional cinnamon roll gigante era consumida. O restante ia para o lixo.Ao mesmo tempo, clientes pediam porções menores. E a rede dizia não.Enquanto isso, a estratégia para compensar a queda de tráfego vinha sendo aumentar preços. A lógica era proteger margem. O efeito, no entanto, ampliava a retração de fluxo.O problema não era marketing.Era desalinhamento entre oferta e comportamento real de consumo.A decisão estratégica foi manter a essência do produto, mas reduzir o tamanho das porções.Com os mesmos ingredientes, o mesmo forno e o mesmo processo produtivo, a massa passou a ser cortada em mais unidades, de menor tamanho. Não se tratava de reinventar a marca. Era redimensionar o modelo.Mas havia resistência.Franqueados temiam o chamado trade down: que o cliente trocasse o produto maior pelo menor e reduzisse o ticket médio.A resposta da liderança foi assumir risco. Os primeiros operadores que testaram o novo formato receberam proteção financeira caso houvesse queda de receita. Criou-se uma coalizão de pioneiros, validou-se no campo e, a partir da evidência, a mudança foi escalada.O resultado foi expressivo: as porções menores representaram mais de 50% do crescimento e mais de 80% da melhoria de lucratividade no período de recuperação.Não foi expansão de portfólio. Foi simplificação inteligente.O custo invisível da complexidade acumulada
O caso do produto é apenas a superfície.A reflexão central da palestra está na governança da complexidade.Redes crescem adicionando camadas: novos itens, novas ferramentas, novas exigências, novas campanhas. Raramente alguém pergunta o que pode sair. É nesse ponto que surge o custo invisível.Ele aparece como:- Tempo operacional consumido por iniciativas de baixo impacto
- Processos que já não geram valor proporcional
- Energia da equipe dispersa
- Pressão crescente sobre a margem da unidade
“A complexidade não controlada não derruba a rede de uma vez. Ela reduz a rentabilidade da unidade em silêncio.”
Reduzir não significa enfraquecer a marca
Um dos principais argumentos contrários às porções menores era identidade. A marca era conhecida pelo produto grande. Reduzir seria descaracterizar.Essa tensão é comum em redes maduras: como preservar a essência sem ficar presa ao formato original. Lyana Bittencourt, CEO do Grupo BITTENCOURT, observa:“Marca forte não é a que replica o passado. É a que preserva sua essência enquanto adapta seu formato à realidade do consumidor.”

Pontos de atenção para líderes de redes
A partir da análise apresentada, algumas reflexões estratégicas merecem atenção:- Se o cliente descarta parte do produto, há um sinal claro de excesso no modelo.
- Se a resposta à queda de tráfego é apenas aumentar preço, pode haver risco de agravar o problema.
- Se a inovação transfere todo o risco para o franqueado, a resistência tende a crescer.
- Se novas iniciativas não vêm acompanhadas de simplificação, a pressão operacional se intensifica.
Como aplicar a lógica de “reduzir para aumentar”
A metodologia defendida por Kat é prática.Perguntas estruturam prioridade:- O que devemos parar de fazer?
- O que devemos começar a fazer?
- O que você faria diferente se estivesse na minha posição?
- O que o cliente joga fora?
- Quando dizemos não com frequência?
“No franchising, maturidade estratégica é saber proteger a economia da unidade antes de acelerar a expansão. Crescer com margem é mais difícil do que crescer com volume.”
A leitura do Grupo BITTENCOURT
A fala de Kat Cole na IFA 2026 reforça um princípio que se repete nas redes mais resilientes: expansão sustentável nasce da disciplina de simplificação.
- Reduzir excessos.
- Eliminar o que perdeu relevância.
- Assumir risco nos pilotos.
- Escalar apenas o que gera evidência concreta.
Redes que aprendem a cortar com método ampliam sua capacidade de crescer.
As que apenas acumulam iniciativas tendem a transferir complexidade para quem menos pode absorvê-la.
No modelo de franquias, proteger a margem da unidade não é conservadorismo.
É estratégia de longo prazo.















