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Transformação de marca não é estética. É decisão estratégica sustentada no tempo

O que Timberland, Vans e The North Face ensinam sobre reposicionamento real no varejo global

“Transformação” se tornou uma das palavras mais desgastadas do vocabulário corporativo. E talvez por isso, ouvir líderes que tratam o tema sem slogans chama atenção. Na palestra da VF Corp. na NRF 2026, Timberland, Vans e The North Face não falaram de mudança como discurso. Falaram de decisão difícil, foco e disciplina para sustentar escolhas ao longo do tempo.

Apesar de atuarem em categorias diferentes e viverem momentos distintos de reposicionamento, as três marcas compartilham um ponto central: transformação não começa no marketing. Começa na estratégia, passa pela cultura e só depois se materializa em produto, comunicação e varejo.

 

Transformar é questionar o que virou intocável

Desde a abertura, Mindy Grossman foi precisa ao desmontar uma ilusão comum. Transformar não é trocar logotipo, lançar um novo manifesto ou atualizar o discurso institucional. Transformação real é estrutural, ampla e exige alinhamento organizacional, respaldo do conselho, investimento consistente e, sobretudo, resiliência para sustentar decisões cujos resultados não são imediatos.

Essa premissa atravessou toda a conversa e apareceu de formas diferentes em cada marca.

 

Nina Flood, Sun Choe e Caroline Brown na NRF 2026. Foto: Reprodução/E-commerce Brasil
Nina Flood, Sun Choe e Caroline Brown na NRF 2026. Foto: Reprodução/E-commerce Brasil

 

Timberland: cultura como eixo da estratégia

No caso da Timberland, a transformação não começou pelo produto nem pela campanha. Começou por uma mudança profunda de mentalidade.

Ao assumir a liderança da marca, Nina Flood colocou em revisão tudo aquilo que normalmente não se questiona. Processos herdados, estruturas cristalizadas, narrativas confortáveis e até símbolos considerados “sagrados” passaram a ser analisados com lupa. Nada ficou fora da mesa.

O ponto mais relevante, porém, não foi técnico. Foi cultural. Reacender energia, crença e orgulho interno virou prioridade. Em meio ao caos natural de uma transformação ampla, a marca precisou criar um ponto de ancoragem. Um lugar claro para onde as equipes pudessem olhar enquanto tudo ao redor mudava.

Esse eixo foi o entendimento profundo da relação emocional do consumidor com a Timberland. Não apenas o que ele compra, mas por que a marca faz as pessoas se sentirem mais fortes, mais confiantes e maiores do que são. Essa leitura passou a orientar produto, marketing e presença cultural.

O resultado não foi um reposicionamento oportunista, mas a amplificação consistente de ícones da marca, conectando herança, cultura de rua, luxo e desejo de forma coerente. Não como moda passageira, mas como construção de relevância sustentada.

 

Vans: foco, clareza e menos excesso

Na Vans, o desafio não era falta de reconhecimento. Era excesso de leituras fragmentadas sobre o que a marca representa.

A transformação partiu da decisão de dimensionalizar a marca, saindo da lógica de silos isolados como skate, música ou moda, para assumir o cruzamento entre esses universos como território estratégico. A Vans não pertence a um único lugar. Ela vive na interseção entre cultura, atitude e expressão.

Esse reposicionamento exigiu escolhas claras, especialmente no produto. Menos lançamentos, menos volume e mais intenção. A obsessão por excelência substituiu a lógica de sortimento inflado. O produto voltou a ser tratado como ativo cultural, não apenas como unidade de venda.

Outro ponto importante foi o papel de apparel e do público feminino. Em vez de serem tratados como desvios do core, passaram a ser vistos como aceleradores de relevância, desde que respeitada a identidade da marca. Ampliar não significou diluir. Significou aprofundar com critério.

 

The North Face: crescer também é saber recuar

Talvez a decisão mais didática da palestra tenha vindo da The North Face.

Ao assumir a marca, Caroline Brown encontrou ativos poderosos. Uma herança sólida, uma autoridade técnica reconhecida e uma base de colaboradores e consumidores profundamente engajada. Ao mesmo tempo, identificou um problema comum a marcas longevas: dispersão estratégica.

A resposta não foi acelerar, mas recuar com inteligência. A marca reduziu seu escopo e decidiu focar em três territórios centrais: snow, climb e trail. Categorias onde o consumidor quer que a The North Face vença, onde a marca pode vencer e onde faz sentido vencer.

Essa decisão reorganizou toda a empresa. Estrutura, mensagem, produto, varejo e relacionamento com o consumidor passaram a responder a esse foco. A performance extrema segue como fundação simbólica da marca, mesmo quando o uso é cotidiano.

A The North Face se mantém acessível e democrática sem abrir mão de autoridade. Esse equilíbrio explica por que continua sendo a maior marca outdoor do mundo.

 

O que essa palestra revela sobre transformação no varejo

Apesar das diferenças entre as marcas, a palestra deixou lições claras:

  • Transformação não é incremental, é estrutural
  • Cultura precede produto e comunicação
  • Foco é uma decisão estratégica, não uma limitação
  • Ícones bem trabalhados constroem relevância intergeracional
  • Resultados vêm depois das escolhas, não antes

 

A visão do Grupo BITTENCOURT

O que Timberland, Vans e The North Face mostram é que reposicionamento de marca não se faz com pressa, nem com superficialidade. As marcas que avançam são aquelas dispostas a dizer não, cortar excessos, rever estruturas e sustentar decisões que podem ser desconfortáveis no curto prazo.

Em um varejo pressionado por velocidade e imediatismo, essas lideranças reforçam uma verdade incômoda, mas essencial: maturidade estratégica é, hoje, um dos maiores diferenciais competitivos.

Transformar não é parecer diferente.
É decidir diferente e sustentar essas decisões ao longo do tempo.

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