O primeiro dia da 66ª Convenção Anual da International Franchise Association deixou um recado inequívoco ao mercado global: o franchising entrou em uma fase de consolidação estrutural. A expansão continua sendo objetivo, mas deixou de ser o ponto de partida.
A pauta dominante foi outra. Proteção institucional, economia da unidade e governança de escala passaram a ser tratadas como pré-condições para crescer.
Essa mudança de foco não é casual. Ela revela maturidade.
Proteção do modelo como estratégia econômica
A defesa do American Franchise Act, apresentada por Mary Kennedy Thompson, recolocou a segurança jurídica no centro da agenda estratégica. O debate sobre definição de responsabilidade trabalhista e clareza regulatória deixou de ser um tema jurídico para assumir dimensão econômica.
Ambiente regulatório instável consome capital, reduz previsibilidade e inibe investimento. O setor parece ter entendido que proteger o modelo é preservar sua capacidade de expansão.
“A força do franchising nunca esteve apenas na capacidade de replicação, mas na segurança do sistema. Sem previsibilidade jurídica, o custo do crescimento aumenta e o risco estratégico se amplia.”
Lyana Bittencourt, CEO do Grupo BITTENCOURT, sintetiza o momento.
Ao posicionar a franquia como negócio local inserido nas comunidades, a IFA também reforça uma narrativa pública relevante. Reputação institucional hoje é ativo competitivo.
Economia da unidade como filtro estratégico
O discurso de Sam Ballas reforçou um ponto que ganha nova dimensão no atual estágio do setor: crescimento sem unidade saudável é expansão frágil.
O foco desloca-se da quantidade de contratos assinados para a qualidade financeira de cada operação. Royalty eficiente, margem equilibrada e suporte estruturado não são apenas boas práticas. São critérios de sustentabilidade do sistema.
Aqui, há um avanço relevante na narrativa do evento. Não se trata apenas de defender disciplina. Trata-se de reconhecer que valuation, atração de capital e longevidade da marca dependem da solidez econômica da base.
“O mercado global está sinalizando que crescimento com múltiplos inflados e operação fragilizada não se sustenta. A base econômica da unidade voltou a ser o principal indicador estratégico”
Felipe Koga, diretor de Estratégia & Digital do Grupo BITTENCOURT.
Governança de escala: o ponto de inflexão
O tema que trouxe maior avanço conceitual no primeiro dia foi governança de grandes sistemas.
Greg Flynn, responsável por aproximadamente 2.400 restaurantes de diferentes marcas, trouxe uma visão prática sobre o desafio da escala. Crescer amplia eficiência e poder de negociação, mas também aumenta a distância entre liderança e operação.
Escala, portanto, não é apenas meta quantitativa. É desenho organizacional.
O modelo apresentado combina autonomia local em mercados administráveis com coordenação central capaz de gerar eficiência sistêmica. Não se trata de descentralizar por cultura, mas por responsabilidade operacional.
Essa arquitetura organizacional impede que a expansão dilua accountability. O crescimento deixa de ser apenas numérico e passa a ser estrutural.
Cultura como mecanismo de consistência
Andrew Cathy reforçou que cultura não é discurso institucional, mas ferramenta de consistência operacional em sistemas descentralizados. Já Daymond John trouxe a liderança como responsabilidade ativa, vinculada a metas claras e leitura de mercado.

O operador, nesse contexto, não é apenas executor. É empreendedor responsável pela integridade do modelo em sua comunidade.
“O que vimos na abertura da IFA foi uma indústria escolhendo amadurecer. Antes de acelerar, decidiu reforçar estrutura. Isso muda a qualidade do crescimento.”
Caroline Bittencourt, sócia-diretora de Relacionamento & Insights do Grupo BITTENCOURT
Pontos críticos para líderes de redes
- Segurança jurídica influencia custo de capital e capacidade de expansão
- Economia da unidade é indicador central de sustentabilidade
- Escala exige arquitetura organizacional clara
- Narrativa institucional impacta ambiente regulatório
- Cultura é instrumento de governança em sistemas descentralizados
Desdobramentos práticos para redes brasileiras
- Revisar indicadores de rentabilidade unitária antes de acelerar expansão
- Avaliar riscos jurídicos que possam impactar crescimento
- Mapear se o desenho organizacional suporta aumento de escala
- Estruturar governança que preserve proximidade com a operação
- Tratar reputação institucional como ativo estratégico
Uma indústria que escolhe fortalecer o alicerce
O primeiro dia da IFA 2026 não foi marcado por promessas grandiosas ou euforia expansionista. Foi marcado por responsabilidade estrutural.
O franchising global sinaliza que sua próxima fase de crescimento será construída sobre três pilares claros: segurança institucional, solidez econômica e governança de escala.
Crescer permanece objetivo. Mas crescer sem estrutura deixou de ser opção.
Para redes que operam no modelo de franquias, o recado é direto. O futuro não pertence a quem cresce mais rápido. Pertence a quem cresce com arquitetura sólida.







