Vale a pena investir num food truck? A discussão em torno do modelo aprovado pela prefeitura da SP continua.

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Aspectos como definição de um ponto fixo, morosidade na liberação das licenças e dúvidas de como fazer o negócio prosperar frente a concorrência que começa a crescer, são desafios de quem pretende investir no negócio. Com críticas a legislação, food trucks trocam as ruas por parques de alimentação. Eventos gastronômicos e parcerias com empresas privadas se tornam opções para quem rejeita ponto fixo nas ruas Com a nova lei que regulamenta a venda de comida de rua em São Paulo, sancionada no início deste ano pelo prefeito Fernando Haddad (PT), a prefeitura colocou a disposição dos empreendedores 900 pontos de comercialização pela cidade. Até agora, no entanto, apenas 27 estabelecimentos conseguiram autorização para começar a funcionar. Segundo a prefeitura, 1,1 mil inscrições foram recebidas. Destas, 500 estão em análise nas subprefeituras e aguardam parecer favorável da Coordenação de Vigilância e Saúde (COVISA) e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Ariane Tassi Guimarães, de 28 anos, e Claudia Daroncho, de 36, proprietárias do food truck Bamboleiras, confeitaria sobre rodas, se inscreveram em busca de um Termo de Permissão de Uso (TPU) na subprefeitura de Pinheiros (zona oeste da capital paulista). Elas vêm participando de reuniões com o órgão e outros empreendedores para acertar detalhes. Por enquanto, contam, ainda há mais furgões do que locais. “Até o início de novembro devemos ter uma posição”, diz Ariane. Segundo a empresária, ainda há muitas dúvidas sobre o decreto da prefeitura. “A ideia da subprefeitura é que os pontos sejam rotativos e os food trucks façam rodízio pelos locais. Achamos ótimo, mas como vamos dividir os gastos com energia e o IPTU do ponto, por exemplo?”, questiona. Outra preocupação é a demarcação do local. “Eu estou pagando pelo ponto. Não posso chegar lá e me deparar com um carro de passeio estacionado”, argumenta a sócia do food truck. Mas a maior polêmica ainda é a questão da itinerância: os trailers não podem se locomover pela cidade ainda que sejam restaurantes sobre rodas. “Não faz sentido ter um negócio itinerante e ficar sempre no mesmo local”, afirma Vinicius Chagas, sócio do food truck de alimentação saudável Box da Fruta. Chagas ainda não inscreveu o negócio no programa da prefeitura e tem preferido trabalhar em parceria com locais privados, em comércios, empresas e eventos. “O que era para ser o primeiro passo [a busca por um ponto fixo nas ruas da cidade] ficou em segundo plano porque o mercado privado está aquecido. O comércio tem interesse nesse negócio: o food truck acaba atraindo clientes para eles”, explica. Recentemente, um SPA procurou o Box da Fruta para uma parceria no evento de aniversário de seus dez anos. O furgão passou o dia no local vendendo sucos, smoothies e saladas de fruta para os clientes. “Também tem empresas que convidam os food trucks para irem até elas e levar uma alimentação diferente para os funcionários”, conta Chagas. Mesmo sem um ponto fixo, explica o empresário do Box da Fruta, trabalha-se todos os dias. "Paramos uma ou duas vezes por semana pra fazer compras, contas e lavar o carro", explica. Para Lyana Bittencourt, do Grupo Bittencourt, o fato dos trailers não serem itinerantes é uma maneira de a prefeitura manter controle sobre a expansão dos negócios. “Acho positivo. Poderíamos ter sérios problemas se não houvesse limite, como um food truck parado na porta de um grande restaurante”, explica. Parques e ventos de gastronomia fazem food trucks ‘bombar’ Outra opção para quem não quer ou ainda não conseguiu um TPU são os parques e eventos de gastronomia. O Butantan Food Park, localizado no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo, funciona todos os dias e recebe cerca de 20 mil pessoas por semana. O local recebe de 8 a 15 food trucks diariamente, deste agosto do ano passado. O negócio deu tão certo que, em outubro, a convite da subprefeitura de Pinheiros, os food trucks invadiram também a rua Matias Valadão, na região da Avenida Faria Lima. “Queremos fazer com que o food truck não seja apenas um programa de fim de semana, mas seja um serviço para o dia a dia do consumidor” explica Mauricio Schartz, de 32 anos, proprietário da empresa que organiza os eventos. Para se instalarem no parque, os veículos pagam aluguel. O valor varia de acordo com o tempo que eles ficam no local – de R$ 150 por turno até R$ 7 mil por mês. Além dos dois food parks, a companhia também é responsável por duas feirinhas gastronômicas na cidade: uma no Butantã e outra no bairro Jardim das Perdizes. Com esses eventos, a empresa de Schartz fatura cerca de R$ 2 milhões por ano. Foi uma feirinha gastronômica que deu início ao Panela na Rua, outro evento de gastronomia que, nas noites de quinta-feira, recebe food trucks com diferentes cardápios. O local funciona em esquema de rodízio: são 75 estabelecimentos cadastrados e, a cada semana, 13 participam. Segundo Caio de Sá, proprietário do local, há uma curadoria para a escolha dos participantes. Todos precisam ter a documentação da Anvisa e da Covisa regularizadas. Os trucks também pagam um valor pela locação do espaço. O valor varia entre R$ 300 e R$ 500. Como nem todos os trailers são autossuficientes energeticamente, alugar um espaço pode ser uma boa opção. “Não adianta você parar na rua se a sua operação não é autossuficiente”, diz Sá. Investimento de empreendedores é alto Segundo Lyana, é comum que a concorrência, como restaurantes e lanchonetes, fique receosa com a onda de food trucks. “Grandes lojas e redes que pagam alto valor de aluguel e que se estabelecem formalmente podem se incomodar. Mas os trucks terão uma área de atuação definida e é preciso lembrar que o investimento nesses estabelecimentos também não é baixo”, diz. Ariane e Claudia, das Bamboleiras, investiram R$ 85 mil só na personalização do carro. Segundo Schartz, o investimento médio nesse tipo de negócio varia entre R$ 150 mil e R$ 300 mil. Sergio Lacarte, de 59 anos, e Diego Rousseaux, de 53, são donos da barraca El Chori Loco, que vende choripán (receita argentina de pão com linguiça) na feira gastronômica de Perdizes. Eles pretendem investir em um trailer, mas contam que muitas empresas que fabricam os veículos estão sobrecarregadas e já não aceitam mais pedidos. Segundo Sá, a demanda tem sido tão alta que alguns empreendedores esperam oito meses para conseguir um trailer. Lacarte e Rousseaux preferiram começar com a barraca como um laboratório. “Queríamos testar o produto, a operação, a montagem e desmontagem e toda a logística”, conta Lacarte. Eles atendem cerca de 400 pessoas por final de semana. Eles também não se inscreveram para obter um TPU na esperança de que a legislação mude. "Queremos ser itinerantes. Achamos que a prefeitura, mais para frente, pode achar outros modes de fiscalizar os trailers do que mantendo-os em pontos fixos", diz Lacarte. De acordo com Lyana, a onda de food trucks veio atender uma demanda que já existia há tempos no mundo dos negócios. "Nos Estados Unidos, muitas marcas expandem seus negócios com food trucks. Aqui, muitas redes já queriam fazer isso, masnão havia legislação". O empreendedor, explica Lyana, precisa se atentar porque, além do investimento ser alto, o faturamento pode não ser tão acelerado. Grandes marcam apostam nos furgões Não são só os pequenos empreendedores que investem nos food trucks. A Doritos, da Pepsico, inaugurou seu food truck em setembro. Em parceria com outro truck, o Buzina Food Truck, o furgão da marca oferece um cardápio que mistura snacks com ingredientes da culinária mexicana, norte-americana e brasileira. A marca Espetinhos Mimi, especializada em espetinhos e organizações de festas, planeja lançar os furgões móveis da marca ainda no primeiro semestre de 2015. "Os trucks são ótimos para ações de marketing. Eles são uma nova experiência de compra ao consumidor, que experimenta a culinária gourmet em locais não previstos. Além disso, o furgão é ótimo para divulgação de marca e merchandising", diz Lyana. Valores do cardápio entram em discussão O choripán do El Chori Loco é vendido por R$ 15. No trailer de bolos e doces das Bamboleiras, os clientes gastam, em média, R$ 10. Outros cardápios têm preços mais salgados. “Fora do País, o conceito de comida de rua é de comida rápida e barata. Aqui virou um pouco de comida da moda e nem sempre é barata, já que não se tem uma estrutura muito grande por trás. Os investimentos são altos. É preciso pensar até quando as pessoas vão aguentar comer de pé, em um truck, pagando o mesmo valor de um restaurante médio em que comeriam sentados”, diz Sá. Já Shchartz afirma que os preços são justos. “Os valores consideram os investimentos dos empreendedores e os excelentes ingredientes feitos por pessoas qualificadas.” Entenda a lei que regulamenta a comida de rua A lei de comida de rua prevê o comércio de alimentos em três tipos de equipamentos: categoria A (veículos automotores ou rebocados por estes – food trucks), categoria B (carrinhos ou tabuleiros com área máxima de 1m²) e categoria C (barracas desmontáveis com área máxima de 4m²). A venda de bebidas alcoólicas está proibida, com exceção de eventos públicos ou privados com a autorização da subprefeitura. Os equipamentos podem ser instalados em vias e logradouros públicos, largos, praças e parques municipais. Está proibida a instalação em Zonas Estritamente Residenciais (ZER), em vagas especiais de estacionamento, em frente a guias rebaixadas, residências, farmácias, hotéis e portões de acesso a edifícios e repartições públicas, dentre outros. Fonte: IG